ÚLTIMA HORA

Repórter do Diário da Região passa um dia todo no Fefol e redescobre que o Folclore é feito à imagem de José Sant’anna

Publicado em 12 de agosto de 2010 às 8h25
Atualizado em 12 de agosto de 2010 às 8h31

IMG_8198*  A repórter Vivian Lima, do Diário da Região de Rio Preto, passou um dia todo acompanhando a programação do 46° Festival do Folclore de Olímpia e, nesta quinta-feira (12), publica com destaque de capa, as descobertas que fez na Capital Nacional do Folclore com o título “O folclore ganha as ruas de Olímpia”.

O Blog reproduz, na íntegra, esta reportagem especial, em homenagem à repórter ao jornal que se dispuseram a ficar um dia todo da programação do Fefol, e ao verdadeiro espírito jornalístico, que vê no Festival um verdadeiro encontro de culturas numa cidade do interior paulista, sobrevivendo entre a ‘modernidade’ das festas comerciais e de apelo fácil, principalmente junto aos jovens, diferentemente do que, infelizmente, acontece na própria cidade, onde a maioria só vê defeitos e querem a ‘perfeição de Sant’anna’, o criador do Festival.

A REPORTAGEM ESPECIAL

Por Vivian Lima e fotos de Guilherme Baffi

Carlos Augusto Ferreira da Silva, fundador do grupo Tajaçuaba, de São Luís do Maranhão Quem se dispõe a acompanhar um dia inteiro da programação do Festival do Folclore de Olímpia experimenta a imersão em diferentes culturas e encontra uma porção do Brasil em cada esquina da cidade. Isso porque as manifestações artísticas não são vivenciadas somente no palco principal do evento, montado no Recinto de Exposições.

Ao longo do dia, os grupos cantam, dançam e divulgam suas tradições pelas ruas, prédios públicos, escolas. Não é preciso palco especial, nem mesmo um grande público. O respeito, a crença e a entrega à cultura de cada equipe é tão forte que eles a exaltam mesmo quando estão apenas entre eles.

A Olímpia, eles vêm com intuito de divulgar sua herança, mas também de conhecer novas culturas. “Nossa ideia é mostrar a cultura popular cacerense. É a primeira vez que nos apresentamos fora de nosso Estado”, diz Fernando Jesus da Silva, coordenador do grupo parafolclórico Vitória Régia, de Cáceres (MT).

O encontro com outros grupos é encarado como forma de enriquecimento. “Para mim, essa integração é muito legal. Além de participar do grupo de fandango, eu faço curso de turismo e é importante ver as diferentes culturas”, diz Luiza Carlla Cristinna Alves, de 19 anos, do grupo Fandango de Paranaguá, no Estado do Paraná.

Luiza explica que o fandango apresentado pelo grupo é uma dança típica do litoral do Paraná e que abarca influências indígenas, espanholas e portuguesas. As danças são acompanhadas das canções dos violeiros – chamadas marcas. Cada marca conta uma história e exige uma dança específica. No traje, há os tradicionais tamancos e roupas que remetem ao trabalho na lavoura. Luiza dá aulas em escolas paranaenses com o objetivo de manter viva essa manifestação. “Para alguns adolescentes, o fandango ainda é um tabu, uma ‘dança de velhos’”, explica.

Essa é a primeira vez que o grupo do qual Luiza participa vem a Olímpia. Já outra companhia paranaense é veterana no festival. O Fogança, de Maringá, existe há 22 anos e há duas décadas participa do evento. Já se apresentou até no exterior, em países como França e Espanha. Este ano, o Paraná é o Estado homenageado. “Assistir ao meu Estado ser exaltado aqui é uma alegria sem fim”, afirma Sueli Alves de Souza Lara, coordenadora do Fogança. Para ela, essa conquista também tem caráter pessoal. “Há 40 anos, eu recebi um prêmio e não pude ir receber porque no clube onde ia acontecer o evento pessoas negras não podiam entrar. Foi o meu marido que entrou no meu lugar.”

Arrastão
nasruas Enquanto se caminha pelas ruas do centro de Olímpia durante o período do festival, não é difícil ser surpreendido por uma peregrinação folclórica. Vários grupos passam pelo comércio, fazem apresentações nos Correios, bancos e até mesmo no prédio da Prefeitura.

Um dos grupos que participaram este ano da peregrinação foi a banda da Associação de Bandas de Congo da Serra, do Estado do Espírito Santo. E esse tipo de ação é justamente o que o grupo busca. “São mais de 200 anos de tradição.
Nossa apresentação é de rua. Queremos arrastar a multidão para nos acompanhar”, conta mestre Daniel, integrante do grupo. As bandas de congo têm origem negra e religiosa. As toadas falam sobre a paisagem da região capixaba e de celebração a São Benedito.

Terra do boi

Vem de São Luís do Maranhão a tradição do bumba meu boi de orquestra. O grupo Tajaçuaba, fundado por Carlos Augusto Ferreira da Silva, 48 anos, canta e dança ainda hoje a tradição iniciada em 1920. O grupo conta com 128 integrantes e tem uma dezena de CDs gravados.

A apresentação inclui canto de toadas sobre temas variados. “São sobre o acontecimento do nosso dia a dia, toadas apaixonadas para a namorada.” É a primeira vez que o grupo liderado por Silva vem a Olímpia. “É a primeira vez e está sendo ótimo. A nossa cultura a cada dia que passa expande e mostra o nosso valor”, anima-se.

Mas quem é de casa também tem espaço no festival, ainda que para pouco público, como na noite da última segunda-feira, quando a programação noturna no palco principal do recinto foi aberta por duas companhias de reis locais. Uma delas, a Cia. de Reis Fernandes, existe há 48 anos. “A companhia começou com meu pai”, diz Nilson José Fernandes, 60 anos, coordenador do grupo. Ele explica o que faz a tradição atravessar décadas. “É a fé em Santos Reis.”

Diferenças se diluem com interação

nutricionista É com a mesma disposição para as apresentações que os grupos em Olímpia se dispõem a interagir com outras companhias. É nesse momento que a diversidade se encontra, independente dos sotaques e trajes distintos. Quando vários grupos se unem, as diferenças se diluem e vira tudo uma festa só. Um Brasil só.

Um exemplo disso é o que acontece pela manhã na Casa de Cultura da cidade. No local, há a concentração dos grupos que fazem a peregrinação folclórica pelo Centro. Antes de mostrar sua tradição para moradores e comerciantes, as equipes se apresentam umas às outras.

E é nesta hora que é possível ver um gaúcho dançando o fandango paranaense ou tocando um instrumento típico das bandas de congo do Espírito Santo. Antônio Faria Thomaz, 52 anos, do Grupo Mineiro Pau Boi Pintadinho, do Rio de Janeiro, conta que no festival encontrou colegas de outras cidades. “É uma irmandade. Encontrei aqui pessoas que passaram pelo Rio de Janeiro fazendo oficinas com a gente.”

Sem pausa

vitoria A animação segue até mesmo na hora dos ensaios no alojamento e na hora da pausa para a comida. No refeitório, a refeição não fica sem a trilha sonora. Os grupos chegam e fazem apresentações espontâneas no local. E se alguém do lado de fora puxa um pagode ‘moderninho’, encontra coro e balé de acompanhamento sem dificuldade.

Para alimentar este batalhão cultural de todo o País são servidas por dia, em média, 600 refeições durante o café da manhã, 800 no almoço e 800 no jantar. No final de semana, quando a programação se intensifica, esse número aumenta. Só para o almoço da última segunda-feira foram necessários 40 quilos de arroz e 20 quilos de feijão.

A nutricionista Fátima Cristina Vanzella cuida da alimentação dos grupos há 22 anos. “Gosto desta integração. Os grupos vêm mostrar para a gente suas danças porque nós trabalhamos aqui das 6 às 22 horas.”

Folclore se mantém vivo pelo encontro de gerações

sul De um lado, a experiência do idoso, que ensina, orienta; de outro, a criança, que aprende e perpetua as tradições. No Festival do Folclore de Olímpia, é possível encontrar essas duas pontas da cadeia que mantém o folclore vivo nos vários pontos do País.

Se o CTG Estância da Serra, do Rio Grande do Sul, tem Isabella Nunes da Silva, de 5 anos, já disposta a divulgar as tradições gaúchas, o Fandango de Paranaguá tem Romão Costa, o Mestre Romão, 81 anos, um dos responsáveis pelo resgate do fandango no Paraná.

Isabella há dois anos e meio dança com os pais Adriana Silva Nunes, 33 anos, e Evandro Hilário da Silva, 36 anos, no Estância da Serra. Ninguém precisou forçar a participação da menina no grupo. “Eu fui pegando as danças só de olhar”, conta Isabella. A mãe explica que ao perceber a facilidade e habilidade da menina passou a integrá-la aos ensaios.

Adriana conta que não é exagero dizer que Isabella praticamente nasceu no grupo. “Eu dancei até o oitavo mês de gravidez.” O pai da menina concorda. “No dia em que ela nasceu, eu fui dançar porque a gente tinha apresentação.”

fandangoMestre Romão também começou cedo no fandango. “Eu tinha 8 anos. Aprendi com minha família, avô, pai, tias. Eu ajudava na plantação de mandioca, vendia canjica e, quando terminava, me chamavam para dançar, e eu fui aprendendo.”

Mestre Romão revela que na década de 70 iniciou o resgate de fandango a pedido de um professor de história e do governo do Paraná. Hoje, há um grupo com seu nome e o que ele resgatou é dançado por jovens de todo o Estado.

Folclore no ensino formal

criancas Além da tradição oral disseminada nas comunidades, Olímpia defende que folclore também se aprende na escola. Para mostrar o contato que os alunos têm com o tema, é realizado o Mini Festival do Folclore. Neste espaço, as escolas municipais mostram manifestações culturais de diferentes partes do Brasil. “É um trabalho feito ao longo do ano, que envolve a criança e o respeito às diferentes culturas”, diz a supervisora de ensino Maristela Aparecida Araújo Bijotti.

As crianças que se apresentam também vão ao Recinto do Folclore para recuperar as brincadeiras tradicionais em uma oficina de brinquedos. Lá, aprendem a fazer pé de lata, bilboquê, cata-vento, tudo com material reciclável.

Abrigo

São também as escolas de Olímpia que abrigam os grupos que vêm para o festival. No alojamento, o clima é de preparação. Espaço para ensaios e últimos reparos em trajes e instrumentos. Quem se adianta nessas tarefas descansa ou mata o tempo jogando futebol.

No início desta semana, grupos do Rio de Janeiro, Ceará e Mato Grosso dividiam espaço na escola municipal Santo Seno. O grupo parafolclórico Vitória Régia, de Cáceres (MT), transformou o pátio da escola em palco para ensaio. Quem coordena o grupo é Fernando Jesus da Silva, que conta que há dois anos desenvolve o trabalho de valorização e preservação da cultura popular cacerense.

O Vitória Régia trouxe para Olímpia o chorado, uma dança feita por mulheres, característica da cidade de Vila Bela de Santíssima Trindade, a primeira capital do Mato Grosso. Apresentam também o siriri, dança que imita os giros de cupins alados. “A temática da música é o Pantanal, o dia a dia do ribeirinho e das lavadeiras e as lendas também”, diz Fernando.

O projeto de Cáceres é cultural e social. Isso porque é desenvolvido em uma escola da periferia da cidade. “É uma forma dos adolescentes participarem de uma ação cultural e até mesmo de manterem vínculo com a escola, já que ex-alunos dão oficinas no projeto.”

Olímpia reúne grupos centenários e estreantes

parafusos Um pouco do secular e da história recente do Sergipe passam pelo festival de Olímpia este ano. Representando o Estado no Festival do Folclore, estão os grupos Parafusos e Raízes da Terra. O primeiro, de acordo com Maria Ione do Nascimento, coordenadora dos núcleos, é uma manifestação com mais de cem anos de existência. Já o segundo é recém-criado.

“Está sendo lançado agora e retrata a vida das mulheres que lavam a roupa no rio e com uma vida diferente da de hoje, sem a liberdade de hoje. Eu vivi essa situação.” O grupo Parafusos tem atualmente 20 integrantes; o Raízes da Terra, 18. Maria Ione, que também é presidente de uma associação que agrega 13 grupos folclóricos no Sergipe, conta que a origem do Parafusos é de 1897. Na apresentação, a companhia usa trajes brancos e maquiagem da mesma cor no rosto.

Segundo ela, a manifestação faz alusão ao fato de que alguns escravos, quando seguiam em direção aos quilombos, pegavam as anáguas das sinhás e as usavam para que, ao percorrer os campos, não fossem perseguidos. “Quem via pensava que era alma sem cabeça e tinha medo. Achava que era assombração”, conta.

***

* Pode comentar à vontade, mas antes, por favor, leia a nossa política de comentários.

Assunto(s):

Leia também:

1 comentário

  1. Giseli disse:

    Que reportagem linda do Folclore, so me faz ficar com saudades da terrinha Olímpia……….parabéns organizadores, mesmo acompanhando de longe eu vejo como vocês se esforçam para manter viva esta festa maravilhosa, não se importem com os criticos maldosos…………..parabéns……GISELI-TAUÁ-CE

Faça um comentário