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Criança, o grande motor do consumo, escreve Karina Younan

Publicado em 04 de abril de 2013 às 13h38
Atualizado em 04 de abril de 2013 às 13h42

A nossa colaboradora, renomada psicóloga Karina Younan, de São José do Rio Preto, envia mais uma importante colaboração, abordando a questão do consumismo em nossas crianças. Boa leitura.

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Existe uma poderosa sedução para o consumo que diariamente nos invoca desejos com promoções, ofertas, facilidades – criando uma demanda artificial e impossível de ser conquistada. No meio dessa intoxicante guerras pelo consumidor, expressa principalmente pelo marketing e pela propaganda, estão nossos filhos, vítimas da ferocidade de um sistema que conhece a importância do desejo da criança na decisão de compra.

A maioria das famílias vive grandes conflitos na hora de comprar, qual o momento de ceder e quando dizer não, pois queremos agradar nossas crianças, atender seus apelos, e fazemos isso tentando possibilitar-lhes uma vida repleta…de coisas. Aí é que está o erro.

CRIANÇA CONSUMO 3Um adulto sabe que uma bolacha recheada de doce não é um alimento vitaminado, como ele é exposto em sua propaganda, mas uma criança pouco sabe a respeito de proteínas e carboidratos. Quando muito pequena, a criança não tem juízo de valores suficientes para filtrar os apelos do comércio, então quem deve decidir o que serve ou não e deve ser consumido são seus pais.

Em seu premiado documentário, Criança A Alma do Negócio, Marcus Nisti mostra como o tempo que a criança passa em frente à televisão, contamina seu desejo ao ponto da falta daquele objeto representar toda sua carência afetiva. Nossa legislação, ao contrário da grande maioria dos países desenvolvidos, não protege a criança de ser exposta ao merchandising. O sapato que vai torná-lo popular entre os coleguinhas por que a luz pisca, ou a boneca que vai causar inveja nas amiguinhas.

Hoje, nossas crianças preferem comprar a qualquer outro programa, e a brincadeira é ganhar mais alguma coisa. Os pequenos determinam os programas familiares, a alimentação da casa, tudo gira em torno de suas satisfações. Verdadeira ditadura da infância. Para as famílias mais pobres ainda existe o dilema entre os desejos dos filhos e o poder aquisitivo que mal cobre as necessidades básicas.

Entre os endinheirados, o difícil é administrar o próprio desejo em agradar. Sabemos que limites ensinam o autocontrole. Não ter tudo o que se quer é aprender a conviver com frustrações, deixando os desejos no terreno do possível. A criança que tem todos os desejos atendidos tem grandes chances de virar um adulto neurótico e com valores distorcidos, pois sua educação não foi calcada na realidade. A onipotência vira complexo de inferioridade e o jovem pode passar a pensar que vale pelo que possui.

Claro que o consumo possibilita uma relação prazerosa com o mundo, mas as crianças precisam aprender a fazer escolhas saudáveis .Os pais devem refletir sobre sua própria ânsia consumista, discutir o que há por traz dos anúncios, analisando a influência que a propaganda quer exercer.

E explicar que nem tudo é possível, ajudando a disciplinar a vontade de consumir e evitando que seus filhos se tornem marionetes de um mercado agressivo.

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